Desde que começou a incluir resumos de trabalhos científicos, o ENAPA enriqueceu ainda mais a sua programação adicionando novas camadas a um conteúdo que já é cuidadosamente elaborado. Estudiosos da Adoção desembarcaram no nosso maior evento anual com seus tubos cheios de conteúdo, aos quais receberam espaço de destaque no evento e menção expressa na programação. Um convite tanto aos pesquisadores, para que compartilhem o fruto de seus trabalhos, quanto aos participantes, para que se beneficiem desse conhecimento.

O XXVII ENAPA, no entanto, inovou. Além de receber o maior número de trabalhos científicos e boas práticas para exposição, reservou um painel para que cinco desses trabalhos, escolhidos pela Comissão Científica, com base em critérios pré-estabelecidos de avaliação, fossem apresentados oralmente.

Todo o material inscrito e exposto no hall de entrada do Encontro superou as expectativas em termos de qualidade e relevância, destacando a necessidade de ampla divulgação.

Foi por esse motivo, e atendendo aos anseios de todos que estiveram presentes em Natal/RN, bem como daqueles que só souberam dos temas abordados pela propaganda boca-a-boca, que trabalhamos junto da Comissão Científica para a materialização de um sonho antigo: a organização de todos os trabalhos em forma de revista.

Nas páginas seguintes, vocês terão acesso a diversos conteúdos que impactam profundamente as realidades vividas no dia a dia, seja no exercício profissional ou na vivência da Adoção e convivência familiar e comunitária.

As reflexões trazidas são muitas. No campo das pesquisas acadêmicas, perpassam a análise da escolha pela maternidade, seja para sua realização, biológica ou adotiva, até a entrega protegida de bebês e uma análise dos principais motivos que levam a essa decisão. Também discutem como as famílias lidam com a história dos filhos que chegam pela Adoção e, complementando a questão, o trabalho desenvolvido ainda durante o acolhimento, como a criação de álbum de memórias dessas crianças e desses adolescentes, além dos desafios que permeiam o acompanhamento escolar daqueles em acolhimento institucional.

São feitas reflexões acerca da necessidade da oferta de efetiva preparação aos pretendentes à Adoção, levando-os a refletir profundamente sobre todos os aspectos envolvidos. Destaca-se a importância do letramento racial e adotivo e a possibilidade de utilização de literatura infantil para auxiliar nesse processo. Há também uma discussão específica acerca do papel das escolas e como a Adoção é tratada nesse contexto.

É apresentada uma análise do perfil de pretendentes à Adoção e sua correlação com o perfil dos filhos pretendidos, bem como o caminho inverso, no sentido de voltar o olhar para os anseios e expectativas das crianças e dos adolescentes que aguardam por uma família. Afinal de contas, nunca podemos perder de vista que eles são o centro de todo o trabalho.

Lança-se luz sobre a enorme quantidade de crianças e adolescentes acolhidos sem definição de sua situação jurídica de colocação em família adotiva ou retorno para a família biológica, e a necessidade de suporte especializado para acompanhamento das chamadas Adoções necessárias (crianças mais velhas, grupos de irmãos, com deficiência e inter-raciais).

Dentre as boas práticas dos Grupos de Apoio a Adoção e outras instituições, enche os olhos e o coração compartilhar iniciativas realizadas no Brasil afora. O projeto Feliz Aniversário, garantindo que crianças e adolescentes tenham direito a comemorações personalizadas e individualizadas, é um exemplo emocionante. Além disso, o olhar voltado especificamente para jovens acolhidos que passaram por processos de devolução/desistência e precisam encarar a possível realidade de alcançar a maioridade dentro das instituições de acolhimento. A parceria com Universidades para ampliação do atendimento por profissionais de Psicologia, não só às crianças e adolescentes acolhidos, mas também aos cuidadores, também merece destaque. Como o Projeto diz, é preciso cuidar de quem cuida.

Em relação ao trabalho dos Grupos de Apoio espalhados por todo o território nacional, destaca-se a necessidade de acompanhamento das famílias em pós-Adoção, a realização de rodas de conversa em ambiente seguro para partilhas sobre suas experiências, bem como a realização de encontros de grande visibilidade, preferencialmente em locais de fácil acesso a pessoas que não estejam diretamente ligadas à Adoção. É preciso furar a bolha e fazer a conversa atravessar as paredes.

Também participam desse processo os filhos por Adoção, que assumem um lugar de protagonismo dentro dos Grupos de Apoio.

O Apadrinhamento também foi pauta. E precisa ser. Quando a Adoção é um sonho distante, ele pode se tornar a melhor forma de cuidado possível.

Fomos brindados, ainda, com duas pérolas, que temos a alegria de compartilhar: o projeto Atitudes Adotivas e Cidadania na Escola, que é, de longa data, um dos grandes xodós da ANGAAD, e integra formalmente este compilado, colocando-se mais uma vez acessível a todos, para que seja replicado em suas localidades, ampliando a cultura da Atitude Adotiva em todas as suas formas.

E, para fechar com chave de ouro, a Adoção do menino que não é de Green Gables nos emocionou desde que o resumo chegou à Comissão. Ler o relato de um garoto que, consciente de sua história, decide que é hora de ressignificar e refazer a rota, é simplesmente lindo.

As páginas que se seguem são um verdadeiro tesouro para todos que vivem e trabalham com Adoção e todas as formas de garantia de direitos a crianças e adolescentes.

Nosso mais profundo agradecimento aos pesquisadores, voluntários, profissionais da rede e demais agentes que dedicaram seu tempo e sua expertise para formalizar trabalhos e práticas que hoje temos a alegria de disponibilizar para que sejam conhecidos e multiplicados em todo o Brasil.

Boa leitura a todos!

Jussara Marra

Presidente – ANGAAD

Novembro/2024