Introdução: Estudos apontam a literatura como meio para disseminação de conhecimento, tornando-se ferramenta para imaginação de futuros possíveis. O letramento facilitado pela literatura transcende o domínio da leitura e da escrita, inserindo e posicionando o sujeito na sociedade. A literatura infantil tem papel relevante em anunciar para as crianças “as coisas do mundo”, auxiliando-as na tradução do mesmo. A história de Aduke é inspirada nas “Escrevivências” de Conceição Evaristo, onde a “ficcionalização de memórias” permite a elaboração da “vida que acontece”. Assim nasce a história de Aduke, criança negra de 10 anos, filha adotiva em uma família homoafetiva formada por pessoas brancas. A personagem relata seu cotidiano, apresentando temas que atravessam famílias inter-raciais e adotivas.
Objetivos: Este trabalho objetivou alicerçar a história de Aduke e pensar a literatura infantil como ferramenta para se discutir raça e Adoção com crianças de 6 a 12 anos, provando-se recurso para o letramento racial e adotivo de pretendentes à adoção, incluindo a família extensa.
Procedimentos metodológicos: As inquietações e questionamentos trazidos por cada uma das experiências vividas por Aduke foram discutidas qualitativamente, em sua maior parte, a partir da perspectiva de Grada Kilomba, em sua pesquisa sobre “Episódios de Racismo Cotidiano”. Uma das situações evidenciadas na pesquisa de Grada Kilomba é a de uma mulher negra alemã filha adotiva de pais brancos que frequentemente é violentada e revitimizada no ambiente familiar devido a falta de letramento desses pais. A história de Aduke narra um episódio de racismo sofrido no ambiente escolar. Para lidar com a situação, a menina se posiciona mostrando aos colegas referências positivas sobre a negritude. Fica evidente que o letramento racial das figuras parentais reflete sobre a postura da filha, fortalecendo-a e protegendo-a. O mesmo ocorre em outro trecho, que relata uma situação de preconceito em relação à Adoção no ambiente familiar. Portanto, a literatura para a infância pode ser uma importante aliada para a construção do letramento racial e adotivo das figuras parentais e da família extensa. Foram consultados para este trabalho estudos das áreas da educação, literatura, Adoção e relações raciais, os quais indicam que o livro infantil pode funcionar como facilitador do processo de letramento racial crítico e adotivo.
Considerações finais: A linguagem expressa na literatura para infância é acolhedora, fomenta a representatividade, facilitando a abordagem de temas desafiadores como racismo e preconceitos de forma respeitosa, comunicando-se com crianças e adultos. Pesquisadores das relações raciais afirmam que a branquitude deve se racializar e buscar inserir atitudes antirracistas em seu cotidiano. As figuras parentais brancas em famílias inter-raciais tem o dever ético de fazer escolhas diárias por uma educação decolonial, pautada em uma perspectiva afrocentrada que ressalte a identidade positivada, a potência e o pioneirismo do povo africano e afrodiaspórico, contribuindo para o desenvolvimento saudável da criança negra em suas famílias. A literatura infantil funciona como ferramenta articuladora desse letramento racial e adotivo, especialmente quando se dá através de conversas significativas, em espaços de troca, escuta e reflexão.