De volta pra casa!

Vamos divulgar:

Hoje faz 10 meses que a Lívia veio definitivamente pra casa.

Parece pouco tempo, mas vivemos e aprendemos juntos muitas coisas nesse período.

Nossa filha, como tantas outras crianças, foi muito maltratada nos 13 anos antes de chegar em casa. Não permitiram a ela viver em segurança, se sentir amada e protegida. Ela chegou aqui sem saber diferenciar os papéis da mãe, do pai e dos filhos em uma família; chegou achando que só existem dois tipos de pessoas no mundo, as “brancas” e bem sucedidas e as “negras” e pobres ou bandidas.

Chegou achando que todos os homens do mundo fossem alcoólatras, que todos os homens do mundo batessem e abusassem de mulheres e crianças. E acreditem, ela demorou a acreditar que o pai dela não é assim: gritava e rolava no chão quando ele ia dar broncas nela, porque sentia as dores físicas que sentiu por tantos anos, mesmo sabendo que ele não tinha uma cinta na mão e não iria bater nela. Até porque o amor e a educação exige limites e correções.

Comigo era diferente: ela não confiava em mim, desafiava minha autoridade de mãe e achava que poderia fazer o que bem quisesse. Foi difícil fazer ela entender essa nova família. Também tem a luta pela higiene pessoal, que não foi um hábito por tantos anos, então agora tem que ficar lembrando e controlando. A luta com as amizades ruins: tivemos que cortar muitas amigas e amigos. A luta com a religiosidade, pois ela não acreditava em Deus, fingia crer mas aos poucos descobrimos que no fundo ela não acreditava que existia um Deus olhando por nós. Muitas reuniões na escola (que graças a Deus tem uma equipe maravilhosa que ajuda muito).

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Uma princesa e uma Karateca guerreira!

As dificuldades são muitas e diárias. Mesmo não estando atrasada na escola, os conhecimentos dela são muito defasados, houve muita negligência também em sua vida escolar e agora em vésperas de ensino médio, estamos sentindo isso na pele e, se ela não tivesse uma família, certamente abandonaria a escola antes de concluir o ensino médio por não conseguir acompanhar a turma.

Fora os familiares que se afastaram por “medo de uma desconhecida”, fora as insinuações que recebemos de que teríamos trabalho, que ela destruiria nosso casamento – todo mundo tem uma história pra contar, uma fofoca pra fazer mas poucos querem ajudar.

Enfim… Resolvi falar um pouco porque no balanço geral, nossa filha é fonte de muito amor, alegria e orgulho pra nós. Tem uma capacidade incrível de se renovar, se transforma a cada dia. Hoje seus olhos brilham e ela já tem certeza que não está mais sozinha, assim como nós temos a certeza que Deus nos deu um grande presente, e que bom que soubemos abrir o coração para recebê-la em nossa família. O que posso dizer aos pais ou futuros por adoção tardia é que não desistam!!! Sejam firmes e não desistam dos seus filhos. O amor e o tempo vão transformar o coração e a vida deles e teremos retribuído todo o amor e dedicação que oferecemos. Outra coisa que precisamos desmistificar é essa ideia de que nós pais somos heróis por adotar… eles é que são os heróis que precisam se reconstruir. Certamente para nossos filhos é muito mais difícil que pra nós.

Mailise Rocha

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